Imagem de indústria pesqueira criada por IA

A indústria pesqueira do Rio Grande do Sul já foi sinônimo de emprego, renda e desenvolvimento regional. Nos anos de 1980, só em Rio Grande, chegou a empregar cerca de 17 mil trabalhadores, sustentando uma cadeia produtiva completa no litoral sul. Seu declínio não ocorreu por falta de peixe, mas por ausência de políticas públicas capazes de proteger e desenvolver a industrialização local.

Hoje, o estado continua produzindo pescado, mas exporta matéria-prima barata e importa desemprego. Enquanto isso, Santa Catarina consolidou uma política fiscal agressiva, logística eficiente e ambiente favorável à indústria, absorvendo o valor agregado, os empregos e a arrecadação que poderiam permanecer no estado e na região.

Publicidade
Publicidade

Leia Também:

Refundar a indústria pesqueira gaúcha exige escolhas claras. Incentivo fiscal orientado à industrialização, política logística integrada e coordenação institucional não são privilégios, são instrumentos básicos de desenvolvimento. Sem cadeia fria, infraestrutura adequada e previsibilidade regulatória, o pescado continuará cruzando a divisa estadual para ser processado fora.

O passado prova que é possível. Em São José do Norte tivemos indústrias pesqueiras com capitais locais ou filiais de empresas riograndinas com diferentes tempos de funcionamento: Luiz Loréa (1945-1949); Ind. Humberto Ferrari e Filhos (1949 e 1971); JG Siqueira (1945-1960), E.Ballester (1950-1960), Ind. Saraiva (1962-1971) e Amaral e Irmão (1962-1971). Uma parte dessas empresas sobraram ou desapareceram com a lógica do DL 221/67 e deram lugar as filiais da Frigoria do Rio de Janeiro e da Confrio de São Paulo. A primeira operou entre 1972 e 1983 empregando até 460 trabalhadores entre fixos e temporários. A Confrio funcionou entre 1972 e 1982, com cerca de 400 trabalhadores e seu prédio foi ocupado pela fábrica de pescados Moura entre 1984 e 1995. A história evidencia o quanto temos capacidade produtiva, técnica e humana. O que falta é vontade política para reconstruir esse caminho.

Um outro aspecto a ser considerado é o perfil da mão de obra deste setor, de baixa escolaridade, majoritariamente feminina e egressa das zonas periféricas, que indica, indubitavelmente, o valor social que estas empresas são capazes de gerar às comunidades da região.

Atualmente este parque industrial, mesmo com potencial, segue flertando com a extinção.

As gerações mais novas se perguntam por que chegamos neste estágio colapsal?

Temos mão de obra com expertise e o principal que é a matéria prima. Continuamos a produzir o pescado e o camarão em quantidade e qualidade, que saem daqui in natura, gerando riquezas para o estado de Santa Catarina.

Em face da inércia da classe política local-regional que não se organiza e nem se mobiliza, fomos engolidos pelo estado vizinho, por meio de uma política tributária competitiva e de uma logística mais atrativa pela proximidade do centro do país.

Ficamos com o espinhaço, as escamas do pescado e as cabeças dos camarões. O que tem valor vai embora, para gerar emprego e renda para o estado vizinho.

Difícil de entender como um estado que diz se orgulhar de suas façanhas, pode ser tão negligente e desconsiderar um setor de elevada capacidade empregatícia como a indústria pesqueira.

Mais intrigante ainda é postura dos demais atores que praticamente abdicaram de lutar pela refundação deste importante parque industrial, especialmente a classe política.

A refundação da indústria pesqueira não é um problema técnico. É uma decisão política, que se devidamente tomada tem tudo para impulsionar o desenvolvimento da nossa região, gerando mais empregos, renda e dignidade ao invés do abandono e da falta de perspectivas que sobrevivemos.